Eles se encontraram. Nada especial, nada planejado, simplesmente se encontraram. Casualidade, enfim. Não era o lugar perfeito, ou a ocasião perfeita, mas nem precisava, nunca se importaram com a precisão ou com detalhes. Ela, segurava um copo. Ele, outra cintura. Seus olhares se cruzaram quase sem querer, e nunca tantos sentimentos couberam dentro de um segundo.
Respiraram fundo, simularam um sorriso, acenaram em concordância. Um pacto silencioso fora selado ali, no meio da pista de dança, entre eles e ninguém mais. Trazer de volta tudo que havia sido cuidadosamente enterrado seria pura imprudência, e acabariam desperdiçando talvez a única oportunidade de se encararem sem se machucar.
Olhou para baixo. Seu copo estava meio vazio: ela precisava de uma bebida. Ou duas, ou mais. Não entendeu porque suas pernas, meio bambas, demoraram pra tomar o rumo do bar. Talvez fosse a vontade de ficar ali mais um pouco, de vê-lo mais um pouco, de recordar mais um pouco. Sentou-se. Uma dose, com limão e gelo, por favor.
Olhou para a frente. Alguém dançava segurando-lhe as mãos. Ele sentiu-se perdido como nunca antes, ferido como nunca também. Não esperava que ela aparecesse agora, ali. Na verdade, depois daquele dia, ele já não a esperava mais. Sentiu o suor gelar em seu pescoço, disfarçou. Preciso ir no banheiro, volto já.
Ela mexeu com os dedos o conteúdo do copo. Lembrava-se daquele dia com uma precisão fotográfica, homogênea, viva. Reviu a cena: ele vindo, cabeça baixa, aquele casaco de sempre. Ela sentada, cabeça erguida, a roupa nova. E um sentimento novo também, que não condizia com o tempo ruim que varria as folhas daquela praça. O vento parecia pressentir o que viria. Chegou mais perto, sentou-se ao seu lado, quieto. Ela, que ensaiara um novo bom dia, emudeceu ao notar que havia algo estranho com ele. Encarou-o.
Ele lavou o rosto com água gelada. Já não estava mais no banheiro. Seus pensamentos o fizeram caminhar de novo através daquele jardim, contando os passos e repassando mentalmente as palavras. Estava nervoso demais para olhá-la. Arriscou. Ela o mirava fixamente com aquele sorriso de um lado só. Só dela. Baixou a cabeça novamente e sentou-se. Podia jurar que se não se controlasse, seus batimentos acelerados o fariam chacoalhar. Fitou-a.
Já não dá mais.
Ela realmente não esperava por isso, não vindo dele. Era sempre ela quem tomava as iniciativas, e agora, com essa pequena frase, era ele que encerrava. Sentiu por dentro uma dor inexplicável, controversa, já que ela prometera a si mesma nunca deixá-la aflorar. E também não podia. Desde o sexto encontro, aquele nas escadarias do edifício, ela deixara claro: não pode ser amor. Era simples. Fosse o que fosse, durasse o tempo que durasse, só não podia ser amor. Não sabia explicar ao certo o porquê dessa repulsa por esse sentimento. Talvez porque muitos dos poemas sobre ele terminassem em lágrimas. Talvez porque das músicas que ele havia inspirado nenhuma fosse realmente feliz. Talvez por pura birra, puro medo, vergonha, não sabia. E sempre que podia o fazia lembrar desta condição. Eu acho que te amo, disse ele por entre os arbustos. Deve ser fome, disse ela por entre as desculpas. E isso em apenas um mês de convivência. Faltavam os outros quatro.
Ele pronunciou aquela pequena frase olhando-a nos olhos. O vento engrossara. Sabia o poder que um olhar tinha sobre aquela que agora prendia a respiração em sua frente, ele acertara o alvo. Ela estava diferente. Roupa, cabelo, mente. Ele até pensara duas vezes antes de despejar as palavras, mas depois do não dá mais, nada remendaria o que se partiu ali. Tinha algo estranho nos olhos dela. Ah, os olhos, os olhos! Desde a primeira vez se apaixonara por eles. Rápidos, brilhantes, secretos. E agora, desorientados, incrédulos. Mas ele já não agüentava. Quantas vezes ligara pra ela sem ser atendido ou retornado? Quantas vezes lhe escrevera palavras inéditas, que descreviam uma sensação inédita, e que foram abandonadas? Quantas vezes a abraçara mais forte pra certificar-se de que ela estava ali, com ele, pra ele? Incontáveis. Já não podia mais esconder que a amava. E amava demais. O ciúmes, a falta, as incertezas. Sintomas que haviam lhe assaltado e que denunciavam o que ele sentia. Mas ele estava exausto. Ele notava a cada beijo que ela o evitava, não a ele, mas ao que os beijos lhe passavam. Então foi escondendo, contendo, morrendo. Então ela foi entrando em cena. Ligava, escrevia, abraçava. E mais: sorria, brincava e, lentamente, amava. Mas ele já não agüentava. Já não podia e nem conseguiria. Marcou um encontro no banco, naquele banco, e estava pronto pra colocar um ponto.
Doeu pra ela. Doeu pra ele. E o silêncio que desceu naquela praça calou a cidade para eles. Um silêncio vazio e, ao mesmo tempo, recheado de palavras não ditas, engolidas secas. Um pra cada lado, um nó desfeito, e cada um com sua parte da linha.
Mais uma dose senhorita? Deu um pulo. Perdera-se entre as lembranças sentada em um balcão de bar. Que típico. Sorriu. Duplo, com limão e gelo, por favor.
Com licença! Ele surpreendera-se: ainda no banheiro. Deu espaço para que um rapaz cambaleante alcançasse a pia. Saiu. Encontrou a moça que o acompanhara na dança há poucos, ou muitos, minutos antes. Preciso de ar, não me espere.
Ele tomava a direção da porta.
Ela tomava o terceiro drink.
Ele a viu, parou, fechou os olhos e mudou de idéia. Foi até ela.
Ela viu sua sombra, e, inconscientemente, já sabia.
Ele sentou-se e encarou-a.
Ela virou, e fitou-o.
Expiraram fundo, sorriram com gosto, acenaram em entendimento.
Eles se encontraram. De novo.
15 de Outubro de 2008 - Texto criado para a cadeira de Comunicação em Língua Portuguesa I - da qual eu sinto uma imensa saudade. É do tempo em que a Fabico ainda tinha bons professores.