terça-feira, 13 de abril de 2010




"Às vezes a gente vai-se fechando dentro da própria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é. Eu acho que a gente não deve perder a curiosidade pelas coisas: há muitos lugares para serem vistos, muitas pessoas para serem conhecidas."

Caio F. Abreu, ocupando um lugar na lista das pessoas que me disseram isso durante essa semana. Talvez seja a hora de eu começar a ouvir.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Há de passar.

Não chora menina, isso há de passar. Essa dor que te afoga vai ficando amena daqui há algum tempo, vai se moldando às tuas memórias e começando a fazer um sentido completamente contrário ao que tu imagina. Tu já passou por isso, por essa dor. Realmente não foi igual, tão presente e dilacerante, mas não há como negar que foi ruim. E passou, não passou? Então enxuga essas lágrimas e te olha no espelho de novo. Para um pouco e pergunta pro teu reflexo úmido o que te fez chorar assim. Se a resposta for "medo", tu errou outra vez. Sei que não adianta te dizer agora que esse medo é bobo e que só te prejudica, porque a essa altura tu já aprendeu. Mas, naturalmente, tu vai me dizer que não existe uma resposta; que tu, que vocês, simplesmente não sabem como explicar o que tem acontecido. Vou fingir que te entendo e afagar tua cabeça, não quero que tu te esforce tentando encontrar razões e que, com isso, tu te afunde ainda mais em ti mesma. Vou esperar que tu desfaça esse nó do teu peito e que realinhe teus cabelos e tuas idéias. Tu não vai conseguir sozinha, então vou te tirar da frente do espelho e te sentar na cama. Não te preocupa, tive o cuidado de guardar os papéis espalhados pelo chão de volta na caixinha deles, não quero te ver agarrada neles como se fossem teu salva-vidas, tua corda. É preciso crescer menina, tu bem sabe disso. Pode te apoiar no meu ombro por enquanto, mas daqui a pouco levanta e caminha com as tuas próprias pernas até o banheiro, lava esse rosto e volta aqui. Vou segurar tua mão e pedir que tu pense melhor em tudo que tu ouviu, e pedir pra que não invente entrelinhas nas coisas que te foram ditas. Tu tem o costume de desmontar as frases e remontá-las de acordo com o que tu quer, ou não, ouvir. Então pára com isso e não faz essa cara de choro; aproveita e tira a capa desse travesseiro, já disse pra não limpar lágrimas maquiadas ali. Sei que parece difícil agora, com tudo ainda muito ardente na cabeça de vocês, mas tenta lembrar de como é boa a sensação quando as coisas andam bem, de como é a liberdade que tu contraditoriamente encontra enquanto tá presa nos abraços dele e de como tu o ama ainda mais sempre que acorda sentindo teus pés nos dele. Usa isso como impulso pra tentar acertar de novo. Pega o telefone e te rende mais uma vez, já passou o tempo de te cobrir de orgulho como tu sempre fez. Uma hora as coisas tem que mudar e, se tem que ser agora, que seja. Mas que mudem pra melhor, chega de desculpas e pesos; deixa claro que o quê tu mais quer é que tudo dê certo. Sei que tu conserva em ti o maior dos sentimentos e que tu espera o mesmo do outro, mas cobranças não vão demonstrar isso. Deixa que aconteçam as coisas e que tudo tenha seu tempo e distância, sem atropelos nem sufocos. Sei que é difícil, mas vocês conseguem. Façam as coisas ainda mais claras, cristalinas, não escondam palavras nem pensamentos, e se a manhã (ou o humor) de um (ou de ambos) não for das melhores , que se entendam e se respeitem e se amem mesmo assim. Nem todos os dias são de sol e nem por isso deixamos de vivê-los.




Porque eu te amo demais e tenho medo de um dia saber que a gente se perdeu por causa das coisas que a gente teimou em inventar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sonho

Assim que Amélia dormiu, os personagens dos seus sonhos se reuniram para chegarem naquele acordo de sempre: quem encenaria os devaneios noturnos da jovem sonhadora. Os personagens mais recentes observavam a tudo meio distantes, de pé; os mais antigos, figuras carimbadas, veteranos de guerra, discutiam sentados. Todos, sem exceção, esperavam pelo decreto do júri imaginário. Ou pelo menos todos acreditavam que não havia exceção, até perceberem que faltava alguém no meio daquela multidão. Uns se entreolharam, outros bufaram emburrados, e alguns, alguns poucos, sorriram. Todos sabiam quem não estava ali e sabiam o porquê. Ligaram o projetor e lá estava ele, sozinho, no sonho da garota. A porta que levava ao cenário estava trancada por dentro, e um bilhete pendia na maçaneta – “Desculpa, de novo, já não depende mais de mim”. E aí caíram por terra todas as futuras acusações contra o garoto-personagem - ele estava certo. Era uma convocação de Amélia, que esperava em sonho, com a mão estendida, sorriso largo e coração aberto, a chegada do garoto. Era força maior, era lei, era Amélia, e contra ela, nem em sonho.
Os bufadores e alguns mais foram indo embora, reclamando mais uma noite em vão. Os sorridentes sentaram-se em frente à tela e assistiram em silêncio ao sonho que a garota encomendara. Um dos velhos conhecidos, antes de sentar-se, caminhou até a porta lacrada e recolheu o bilhete que jazia ali. Carinhosamente ele o colocou no topo de uma pilha de outros bilhetes da mesma caligrafia que, dia após dia, vêm se acumulando, durante os quase oito meses que se passaram desde a aparição do garoto-personagem nos sonhos de Amélia.

E seguiram juntos pela noite, a garota e o garoto-personagem. Ou a garota e o amor.
Tanto faz, já que estas são duas palavras distintas que significam, para Amélia, uma coisa só.

domingo, 6 de setembro de 2009

Ato 1

Imagina que bom seria se, por um dia apenas, deixássemos nossas máscaras em casa antes de sair. Se nos mostrassemos crus, reais, humanos diante de todos aqueles que conhecemos. Ou que pensamos conhecer. Todos assim, despidos de falsas crenças, de modismos, despidos de culpas e até mesmo de certos pudores. Se isso acontecesse, seríamos apresentados uns aos outros novamente e, com alguma sorte, encontraríamos muito mais laços em comum com aqueles que nos cercam do que jamais imaginamos. Ou criaríamos laços com quem jamais cogitamos.
Vivemos em um palco social montado, em uma cidade que disfarça as rachaduras de sua estrutura e em um país governado por fantoches. Todos somos atores mascarados, também disfarçando nossas próprias rachaduras e nos deixando manusear.
A primeira atitude a ser tomada, e talvez a mais difícil, seria aceitar que imprimimos diariamente em nós uma estampa que não nos traduz exatamente, aceitar que nem sempre somos o que idealizamos e que disfarçar não é melhor do que expor. Precisaríamos, também, entender que por muitas vezes deixamo-nos pintar por pincéis alheios, deixamos que montassem nossa própria imagem em troca de um bom papel nesse teatro que é a vida.
Talvez por isso, pela dificuldade de aceitar a nós mesmos e aos outros, dia após dia vestimos nossas máscaras e entramos em cena com pessoas que igualmente fingem ser o que não são.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sobre escrever e escrever e escrever

Eu poderia ficar horas aqui, olhando pra esse rua gélida e pra essas pessoas encasacadas que passam por baixo da minha janela. Mas não. Eu não consigo. Existe uma força magnética que me chama pra este computador. Por mais que eu queira e tente me afastar do trabalho, dessa telinha e desses botões alfabéticos, eu acabo voltando sempre a me sentar e escrever, escrever, escrever. Eu posso escrever sobre qualquer coisa: coisas comuns, coisas extraordinárias, coisas estranhas, coisas banais, sobre nenhuma coisa em específico. Sou muito liberal em relação a isso. A minha paixão pelas palavras vem de cedo, vem da Eva viu a uva na minha cartilha e provavelmente irá para muito além do que eu imagino. Somos amigas íntimas, se quer saber. Há algum tempo andei me esquecendo delas. Deixei-as de lado para descobrir outros prazeres, mais palpáveis, mas não mais entorpecentes. Encontrei-as novamente por esses dias, perdidas em um diário recheado de vivências e lágrimas. Aliás, por muitas vezes minhas palavras vieram regadas dessa água salgada, normalmente dolorida e quase sempre verdadeira. Talvez por isso eu as tivesse largado, pois quando as trazia à tona era por que precisava trazer na verdade algo muito maior. Mas resgatei-as, bem a tempo. Elas andam aparecendo um pouco envergonhadas ainda, recuadas com um medo não-se-de-quê. Já já elas se acostumam, já já. Eu não costumo escrever quando me mandam (receio que vá ter problemas futuros graças a isso), apenas quando canso de guardar as palavras dentro de mim; quando elas passam a ocupar tanto espaço em minha cabeça que parecem querer sair pelas minhas orelhas. E quando chega a este ponto, é crítico. Saio, ligo os pontos mentalmente, formulo algumas frases e volto pra escrever. Normalmente elas aparecem fácil, mas quando resolvem não ajudar, sai da frente. Existem dias em que posso passar horas a fio sentadas em frente ao computador, observando aquela pequena linha preta vertical piscando sobre o fundo branco, como se dissesse “E aí, vai sair ou não?”. E elas não saem. E eu tento. E nada. Desisto! Faço outras coisas, espaireço, vou dormir. Acordo de madrugada para um copo d’água e, no susto, as palavras me assaltam, ali mesmo na cozinha, e me fazem ligar o computador e descarregá-las. Elas me dominam de vez em quando. Apesar de tudo, do afastamento temporário, dos dias sem elas, dos dias cheios delas; as palavras e eu mantemos uma relação saudável e na maioria das vezes harmoniosa, entrando em conflito apenas quando resolvo falar sobre coisas minhas (sentimentos, pra ser mais direta), que nem mesmo as palavras são capazes de expressar por mim.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Cinco coisas que eu gostaria de ser

Navegando por aqui, encontrei uma idéia boa que me chamou a atenção: listar cinco coisas que não somos mas gostaríamos de ser. Listei as minhas, com algum esforço, e aí estão:

1. Bonita: gente, podem falar, podem torcer o nariz, podem negar, mas a beleza importa sim! Imagina se eu pudesse acordar todos os dias, me olhar no espelho e pensar: "meu Deus, obrigada, eu também fico ótima assim toda escabelada, remelenta e com os olhos inchados". Ah como seriam boas (e fáceis) minhas manhãs...

2. Entendida: daquelas pessoas que conhecem tudo, que articulam argumentos muito facilmente e que mantém por horas a fio as conversas mais bem fundamentadas. Queria saber tudo sobre literatura, cinema, música, biologia, astrologia, gastronomia, ia, ia, ia.

3. Professora: ok, nunca contei publicamente, mas tô pensando em mudar de curso. Sempre quis ser professora e minha primeira opção no vestibular deveria ter sido Pedagogia. Deveria. Nada como um salário escroto pra fazer a gente desistir dos nossos sonhos.

4. Amante: não no sentido ilícito e carnal, não me entendam mal, por favor. Ser amante no sentido cru da palavra (adj. gên. - quem ama). Queria amar demais, bem mais do que minha mente, corpo e espírito permitem. Queria amar o maior número possível de pessoas e receber delas o mesmo amor. Ou, o que me parece mais próximo ao que tenho agora, amar infinitamente uma pessoa só. Aquela pessoa só.

5. Nômade: viver onde der vontade, imagina só. Cada mês em um lugar diferente e, em cada lugar, pessoas, costumes, histórias, sabores, aromas, climas, pores-do-sol diferentes. Morar em casa, em apartamento, em barraca, em iglu, em rede, em oca, em barco, em árvore, em saco de dormir, em um sofá emprestado. E quando perguntassem por onde ando, "Tá aí pelo mundo", é o que ouviriam.

Tem mais por aqui também, dá uma olhada. Faz a tua também, não custa nada.
E se quiser, me mostra, vou gostar de ler.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

(des) Encontro

Eles se encontraram. Nada especial, nada planejado, simplesmente se encontraram. Casualidade, enfim. Não era o lugar perfeito, ou a ocasião perfeita, mas nem precisava, nunca se importaram com a precisão ou com detalhes. Ela, segurava um copo. Ele, outra cintura. Seus olhares se cruzaram quase sem querer, e nunca tantos sentimentos couberam dentro de um segundo.
Respiraram fundo, simularam um sorriso, acenaram em concordância. Um pacto silencioso fora selado ali, no meio da pista de dança, entre eles e ninguém mais. Trazer de volta tudo que havia sido cuidadosamente enterrado seria pura imprudência, e acabariam desperdiçando talvez a única oportunidade de se encararem sem se machucar.
Olhou para baixo. Seu copo estava meio vazio: ela precisava de uma bebida. Ou duas, ou mais. Não entendeu porque suas pernas, meio bambas, demoraram pra tomar o rumo do bar. Talvez fosse a vontade de ficar ali mais um pouco, de vê-lo mais um pouco, de recordar mais um pouco. Sentou-se. Uma dose, com limão e gelo, por favor.
Olhou para a frente. Alguém dançava segurando-lhe as mãos. Ele sentiu-se perdido como nunca antes, ferido como nunca também. Não esperava que ela aparecesse agora, ali. Na verdade, depois daquele dia, ele já não a esperava mais. Sentiu o suor gelar em seu pescoço, disfarçou. Preciso ir no banheiro, volto já.
Ela mexeu com os dedos o conteúdo do copo. Lembrava-se daquele dia com uma precisão fotográfica, homogênea, viva. Reviu a cena: ele vindo, cabeça baixa, aquele casaco de sempre. Ela sentada, cabeça erguida, a roupa nova. E um sentimento novo também, que não condizia com o tempo ruim que varria as folhas daquela praça. O vento parecia pressentir o que viria. Chegou mais perto, sentou-se ao seu lado, quieto. Ela, que ensaiara um novo bom dia, emudeceu ao notar que havia algo estranho com ele. Encarou-o.
Ele lavou o rosto com água gelada. Já não estava mais no banheiro. Seus pensamentos o fizeram caminhar de novo através daquele jardim, contando os passos e repassando mentalmente as palavras. Estava nervoso demais para olhá-la. Arriscou. Ela o mirava fixamente com aquele sorriso de um lado só. Só dela. Baixou a cabeça novamente e sentou-se. Podia jurar que se não se controlasse, seus batimentos acelerados o fariam chacoalhar. Fitou-a.
Já não dá mais.
Ela realmente não esperava por isso, não vindo dele. Era sempre ela quem tomava as iniciativas, e agora, com essa pequena frase, era ele que encerrava. Sentiu por dentro uma dor inexplicável, controversa, já que ela prometera a si mesma nunca deixá-la aflorar. E também não podia. Desde o sexto encontro, aquele nas escadarias do edifício, ela deixara claro: não pode ser amor. Era simples. Fosse o que fosse, durasse o tempo que durasse, só não podia ser amor. Não sabia explicar ao certo o porquê dessa repulsa por esse sentimento. Talvez porque muitos dos poemas sobre ele terminassem em lágrimas. Talvez porque das músicas que ele havia inspirado nenhuma fosse realmente feliz. Talvez por pura birra, puro medo, vergonha, não sabia. E sempre que podia o fazia lembrar desta condição. Eu acho que te amo, disse ele por entre os arbustos. Deve ser fome, disse ela por entre as desculpas. E isso em apenas um mês de convivência. Faltavam os outros quatro.
Ele pronunciou aquela pequena frase olhando-a nos olhos. O vento engrossara. Sabia o poder que um olhar tinha sobre aquela que agora prendia a respiração em sua frente, ele acertara o alvo. Ela estava diferente. Roupa, cabelo, mente. Ele até pensara duas vezes antes de despejar as palavras, mas depois do não dá mais, nada remendaria o que se partiu ali. Tinha algo estranho nos olhos dela. Ah, os olhos, os olhos! Desde a primeira vez se apaixonara por eles. Rápidos, brilhantes, secretos. E agora, desorientados, incrédulos. Mas ele já não agüentava. Quantas vezes ligara pra ela sem ser atendido ou retornado? Quantas vezes lhe escrevera palavras inéditas, que descreviam uma sensação inédita, e que foram abandonadas? Quantas vezes a abraçara mais forte pra certificar-se de que ela estava ali, com ele, pra ele? Incontáveis. Já não podia mais esconder que a amava. E amava demais. O ciúmes, a falta, as incertezas. Sintomas que haviam lhe assaltado e que denunciavam o que ele sentia. Mas ele estava exausto. Ele notava a cada beijo que ela o evitava, não a ele, mas ao que os beijos lhe passavam. Então foi escondendo, contendo, morrendo. Então ela foi entrando em cena. Ligava, escrevia, abraçava. E mais: sorria, brincava e, lentamente, amava. Mas ele já não agüentava. Já não podia e nem conseguiria. Marcou um encontro no banco, naquele banco, e estava pronto pra colocar um ponto.
Doeu pra ela. Doeu pra ele. E o silêncio que desceu naquela praça calou a cidade para eles. Um silêncio vazio e, ao mesmo tempo, recheado de palavras não ditas, engolidas secas. Um pra cada lado, um nó desfeito, e cada um com sua parte da linha.
Mais uma dose senhorita? Deu um pulo. Perdera-se entre as lembranças sentada em um balcão de bar. Que típico. Sorriu. Duplo, com limão e gelo, por favor.
Com licença! Ele surpreendera-se: ainda no banheiro. Deu espaço para que um rapaz cambaleante alcançasse a pia. Saiu. Encontrou a moça que o acompanhara na dança há poucos, ou muitos, minutos antes. Preciso de ar, não me espere.
Ele tomava a direção da porta.
Ela tomava o terceiro drink.
Ele a viu, parou, fechou os olhos e mudou de idéia. Foi até ela.
Ela viu sua sombra, e, inconscientemente, já sabia.
Ele sentou-se e encarou-a.
Ela virou, e fitou-o.
Expiraram fundo, sorriram com gosto, acenaram em entendimento.
Eles se encontraram. De novo.


15 de Outubro de 2008 - Texto criado para a cadeira de Comunicação em Língua Portuguesa I - da qual eu sinto uma imensa saudade. É do tempo em que a Fabico ainda tinha bons professores.